Nas cartas anteriores, contamos de onde viemos e como a floresta se estuda. Esta é sobre uma noite de abril. E sobre o que apareceu nela.
Uma das armadilhas fotográficas instaladas na Reserva Jardim da Amazônia registrou, no escuro, uma onça-preta cruzando a mata. Não foi um clique de sorte. Foi o resultado de um ano de monitoramento silencioso, conduzido aqui pelo Projeto Jaguar ID.
Uma forma rara, no lugar improvável
A onça-preta não é outra espécie: é a mesma onça-pintada, na sua forma melanística. Como explica o biólogo Fernando Tortato, da ONG Panthera, o melanismo vem de um gene dominante que escurece a pelagem e esconde as manchas características. É raro na natureza, e por isso cada registro tem peso.
O que torna este registro notável é o endereço. O Jardim fica no coração do Arco do Desmatamento, a faixa ao sul e leste da Amazônia onde a lavoura e a pecuária vêm substituindo a floresta nativa em ritmo acelerado. Cercada por esse avanço, a reserva é um dos últimos refúgios de vida silvestre da região.
Uma onça no Arco do Desmatamento não é acaso. É ativo de uma floresta que alguém manteve de pé.
Não uma onça, mas uma família
A onça-preta foi a imagem que chamou atenção, mas não veio sozinha. Em um ano de monitoramento, o Projeto Jaguar ID identificou ali ao menos quatro machos e duas fêmeas. Onde quase não há mais floresta em volta, a reserva funciona como território de várias onças ao mesmo tempo.
Para o Projeto Jaguar ID, o recado é claro. Em uma paisagem onde a floresta ao redor recua a cada safra, registrar tantas onças em tão pouco tempo revela o valor do que o Jardim manteve de pé. A mata que a família preservou virou abrigo para quem precisa de muito espaço para viver.
É por isso que falamos primeiro da conservação. A onça no topo da cadeia só permanece onde a floresta inteira resiste. Quando um parceiro traz um viajante para o Jardim, está trazendo alguém para um dos poucos lugares da região onde a maior predadora das Américas ainda tem para onde voltar.
Na imprensa: G1 · "Onça-preta é flagrada por câmeras de projeto em pousada no interior de MT".
Esta foi a terceira carta. Nas próximas, abriremos outras porteiras do Jardim com vocês: as temporadas de aves, o tarifário, os bastidores da conservação.
Às agências e parceiros que quiserem trazer seus viajantes para perto dessa história, é só falar com a gente. Seguimos cuidando deste refúgio, e será uma alegria abrir as porteiras dele para os viajantes de vocês.

